Mercado de trabalho · Análise

Mercado de trabalho: crescimento do emprego chega ao interior?

Os mínimos históricos no desemprego nacional escondem assimetrias regionais que vale a pena conhecer.

Plano largo do interior de um armazém industrial português com trabalhadores com coletes refletores sob luz quente

Portugal registou em 2024 uma taxa de desemprego de 6,4%, o valor mais baixo desde que o INE iniciou a série histórica comparável. Os títulos nos jornais foram celebratórios — e com razão, até certo ponto. Mas quando se abre a desagregação regional, a celebração pede algumas reservas. Na região de Lisboa, a taxa de desemprego situa-se abaixo dos 5%. No Centro — onde se inclui Aveiro, Coimbra e Viseu — os números são ligeiramente mais elevados e, o que é mais revelador, a qualidade do emprego criado difere substancialmente. Nos dois grandes polos urbanos, o crescimento tem sido puxado por setores de maior valor acrescentado: tecnologia, serviços financeiros, turismo de luxo. No interior e nas cidades médias, a criação líquida de emprego concentra-se no setor da distribuição, logística e trabalho sazonal — tipicamente com contratos a prazo e salários próximos do mínimo nacional. Esta dualidade tem consequências sérias para as políticas públicas. Um programa de combate ao desemprego desenhado para Lisboa pode ser completamente inadequado para Beja ou Guarda. E as métricas agregadas — úteis para comparações internacionais — obscurecem precisamente esta heterogeneidade que define a realidade vivida pela maioria dos portugueses.

Outro dado relevante: a emigração continua a distorcer as estatísticas. Uma parte da descida do desemprego reflete não criação de emprego em Portugal, mas saída de população em idade ativa. O INE publica os números do emprego a partir de um inquérito aos residentes — quem emigrou deixa de ser contado. Estima-se que entre 2022 e 2024 cerca de 60.000 a 80.000 portugueses em idade ativa tenham saído do país, segundo dados da OCDE e do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras. Isso não invalida a melhoria real do mercado de trabalho, mas ajusta o otimismo. Para 2025, o crescimento do emprego dependerá em grande medida da execução dos fundos do PRR e da capacidade das empresas do interior de atrair e reter talento. A Techgridr monitoriza estes dados trimestralmente e cruza-os com os registos de criação de empresas e insolvências regionais.